segunda-feira, 5 de novembro de 2012

de repente você se vê correndotanto que suas pernas não conseguem nem acompanhar seus passos. como se você tivesse pressa, muitapressa, como se fugisse de alguma-coisa, ou como se te esperassem, como se tivesse para onde ir.
(se não fosse tão-óbvio, diria que você foge de você-mesma.)(que fujo de mim-mesma.)

o peito salta, como se fosse um soco por-dentro. você não tem pra onde ir, não tem por que correr. os passos acalmam, os pés pisam o chão.

tempo é tudo o que temos.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

tenho medo de me deitar com você

porque os nós não se desatam e os fios são contínuos. as cordas vibram ao toque, e a nota só existe porque alguém escuta.

um dia me disseram - eu ainda não sei - que a música vai se fazendo, mesmo sem a gente perceber. de repente, você vê, de repente você tá lá ouvindo, dançando. sem saber.
mas sempre: quando a gente começa a dançar conforme a música, ela acaba.

(então me abraça, me devora, pela última vez)

e todas as músicas são continuação das outras. notas finitas, combinações impensáveis. tudo vibra.
o-que-foi ecoa no que vai-ser. repetidamente.

de novo: fermata
(pelotempoquedurar)


corro o risco outra vez.

terça-feira, 22 de maio de 2012

pour mémoire

[   ]
deixa a saudade em repouso
(em estação de águas)
tomando conta
desse objeto claro
e sem nome.

terça-feira, 1 de maio de 2012

erro de premissa


me pergunto, então, o que fazer de mim. e tenho vontade de perguntar: isso ainda existe? "mim" ainda existe? eu ainda existo?
não sei quem poderia me responder. eu poderia me responder, se ainda existisse - e soubesse.

os olhos não sabem bem o que buscar, onde buscar. quando, de repente, meu olhar cruza inevitavelmente com meu corpo, tudo é uma surpresa tal que a pele se retrai e meus dedos procuram apalpar tudo o que está tão perto, sempre, tão presente, mas que não parece mais me pertencer. penso se é o corpo que não me pertence ou se eu não pertenço mais a ele.

você compreende?

eu costumava fazer tanto essa pergunta. cada-coisa que eu falava era seguida dela, a questão inevitável, a frase que implicitamente dizia: sim, há algo a compreender.
porque, então, naquele tempo, havia algo para se entender. eu tinha algo que precisava desesperadamente ser entendido pelos outros, porque eu já tinha entendido. tudo era tão claro em mim que a névoa em que me viam envolta me sufocava; eu tinha vontade de gritar: não é tão difícil assim, eu não sou tão difícil assim.
talvez (eu)não fosse.
hoje, porém, sou a última pessoa capaz de entender qualquer-coisa. qualquer coisa que deva ser compreendida.

terça-feira, 17 de abril de 2012

em fase de testes

querendo ver até onde aguenta, procurando saber se tudo já passou;
observando o instante exato do desespero, marcando o passo definitivo.

talvez assim não seja justo. paradoxo do observador.
eu previa cada ladrilho solto na calçada, listava na cabeça a ordem das ruas, sabia (sem poder saber) que não encontraria ninguém em nenhuma esquina.

a gente tenta ver até onde dá. em passos lentos, em olhares distraídos.
refazendo caminhos que antes nos levavam exatamente aonde queríamos estar.
e inventamos, ainda, acasos e encontros que, na nossa imaginação, passam leves como irrealidades. é assim que vemos como quase-tudo é previsível e controlável, menos nós mesmos.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

heaven can wait and hell's too far to go

domingo, 8 de abril de 2012

outros -

você não sabe os gestos que um outro corpo pode fazer, todas as coisas que uma voz pode dizer - e o que, então, você pode sentir.

a gente jamais imagina;


ainda-bem.

quinta-feira, 29 de março de 2012

você não conhece o escuro até não ter olhos pra refletir a luz dos seus - quando, então, eles se tornam negros e fundos e a escuridão se torna seu próprio olhar.

você não conhece o silêncio até sua voz falhar porque não há quem escute o que você diz, qualquer-coisa-que-fale se perderá - tudo é esse vácuo que ecoa sua mudez tão cheia de coisas-a-dizer.

(você, agora, conhece.)

terça-feira, 27 de março de 2012

dos dias livres

tinha 23 anos e morava sozinha. pagava as próprias contas, tinha seu carro, seus móveis, sua rotina. tinha seu namoro firme, seu companheiro. trabalhava todos os dias, tinha opiniões fortes, certeza do futuro, fotografias de viagens pelo mundo-todo nas paredes e uma estante cheia de livros. sabia cozinhar sua própria comida, deixava a cama desarrumada por princípio, tomava banho sempre de manhã depois de fazer alongamentos. visitava a família com frequência, saía pra beber com as amigas toda semana, às vezes dava festas.
declarara independência, só não conseguira se desgarrar de Maria, que ia duas vezes na semana ver se estava mesmo tudo bem com "a menina", como carinhosamente a chamava. trabalhara na casa dos pais por 22 anos e agora se dividia entre os dois trabalhos, também sem conseguir aceitar que sua pequena crescera e sabia se cuidar sozinha. (não tinha certeza se sabia.)

feito criança, sentava numa cadeira perto do fogão, bem de frente pras costas largas da agora cozinheira, atrapalhando toda a dinâmica da preparação do almoço e, aflita e sorridente, despejava todas as suas paixões, pedia respostas, demonstrava incertezas. às vezes endireitava as costas e se colocava no seu pretenso papel de adulta, fazia ela mesma análises e julgamentos. pra então se derreter de novo e dizer: "mas, maria, ai! a gente não tem que viver exatamente o que quer? eu acho que eu tou apaixonada! é muito errado isso?" - ao que a mulher olhava pro teto e suspirava fundo, pensando que a vida podia mesmo ser simples como o amor de uma menina apaixonada. sem jeito, então, e agindo exatamente como quinze anos antes, dizia: "vai, menina, vai pra lá brincar, me deixa trabalhar aqui!" - com uma impaciência tão mal-fingida que a menina sorria, levantava num salto e ia pra longe. cada uma perdida em seus pensamentos.

quarta-feira, 21 de março de 2012

de repente você nem sabe mais de onde vem a dor. ela já está embrenhada no dia a dia, nas suas ações, nos seus movimentos lentos. não é angústia, não é sofrimento, é dor, tristeza. escuro e silêncio. você reconhece. é só isso que pode ver.

quarta-feira, 14 de março de 2012

construindo aos poucos um muro em volta do peito,
nova fortaleza.

os lábios ainda sorriem e a ideia ainda pode entender a alegria dos outros, gostando,
mas os olhos andam distante, apagados.


é como uma barreira que criamos pra que tudo-isso não se derrame pra fora da gente,
tudo permanece aqui-dentro, e você submerge sem saída.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

releituras

será que a gente só consegue querer o que já conhece?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

uma tristeza tão grande nas coisas mais simples que você tocou

e assim esse exagero que é cada despedida, essa sensação de que nada nunca vai ficar bem de novo, de que passado e futuro foram despedaçados - invenções largadas, mentiras, talvez. a vida sem fazer sentido nenhum, a beleza sem a menor graça, as escolhas inexistentes, os caminhos fechados e essa droga de consciência tão-viva, tão clara, sem sono ou devaneio, sem desmaios, sem poder desligar, sem descansar.
a casa vazia, o peito vazio, os dias arrastados.
por causa de você. sem você. a sensação de que tudo foi dito, a vontade de fazer mais-alguma-coisa, de segurar firme a última ponta que resta, a última coisa, um último beijo, o último adeus.

esse enjoo que dá só de pensar que um dia tudo-isso vai passar, que vai ficar tudo bem, que você vai esquecer e a vida vai seguir. tudo tão besta e à toa, tudo tanto, tão irritante. vontade de deixar de cuidados e gritar com você, de ser violenta e te puxar pelo braço, te deixar ver nos meus olhos o sangue vermelho e quente, essa dor, essa raiva, essa vida sem saída, essa porra desse amor que grita aqui dentro, que só quer ser paz, fazer bem, amor recusado.