terça-feira, 27 de março de 2012

dos dias livres

tinha 23 anos e morava sozinha. pagava as próprias contas, tinha seu carro, seus móveis, sua rotina. tinha seu namoro firme, seu companheiro. trabalhava todos os dias, tinha opiniões fortes, certeza do futuro, fotografias de viagens pelo mundo-todo nas paredes e uma estante cheia de livros. sabia cozinhar sua própria comida, deixava a cama desarrumada por princípio, tomava banho sempre de manhã depois de fazer alongamentos. visitava a família com frequência, saía pra beber com as amigas toda semana, às vezes dava festas.
declarara independência, só não conseguira se desgarrar de Maria, que ia duas vezes na semana ver se estava mesmo tudo bem com "a menina", como carinhosamente a chamava. trabalhara na casa dos pais por 22 anos e agora se dividia entre os dois trabalhos, também sem conseguir aceitar que sua pequena crescera e sabia se cuidar sozinha. (não tinha certeza se sabia.)

feito criança, sentava numa cadeira perto do fogão, bem de frente pras costas largas da agora cozinheira, atrapalhando toda a dinâmica da preparação do almoço e, aflita e sorridente, despejava todas as suas paixões, pedia respostas, demonstrava incertezas. às vezes endireitava as costas e se colocava no seu pretenso papel de adulta, fazia ela mesma análises e julgamentos. pra então se derreter de novo e dizer: "mas, maria, ai! a gente não tem que viver exatamente o que quer? eu acho que eu tou apaixonada! é muito errado isso?" - ao que a mulher olhava pro teto e suspirava fundo, pensando que a vida podia mesmo ser simples como o amor de uma menina apaixonada. sem jeito, então, e agindo exatamente como quinze anos antes, dizia: "vai, menina, vai pra lá brincar, me deixa trabalhar aqui!" - com uma impaciência tão mal-fingida que a menina sorria, levantava num salto e ia pra longe. cada uma perdida em seus pensamentos.

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