declarara independência, só não conseguira se desgarrar de Maria, que ia duas vezes na semana ver se estava mesmo tudo bem com "a menina", como carinhosamente a chamava. trabalhara na casa dos pais por 22 anos e agora se dividia entre os dois trabalhos, também sem conseguir aceitar que sua pequena crescera e sabia se cuidar sozinha. (não tinha certeza se sabia.)
feito criança, sentava numa cadeira perto do fogão, bem de frente pras costas largas da agora cozinheira, atrapalhando toda a dinâmica da preparação do almoço e, aflita e sorridente, despejava todas as suas paixões, pedia respostas, demonstrava incertezas. às vezes endireitava as costas e se colocava no seu pretenso papel de adulta, fazia ela mesma análises e julgamentos. pra então se derreter de novo e dizer: "mas, maria, ai! a gente não tem que viver exatamente o que quer? eu acho que eu tou apaixonada! é muito errado isso?" - ao que a mulher olhava pro teto e suspirava fundo, pensando que a vida podia mesmo ser simples como o amor de uma menina apaixonada. sem jeito, então, e agindo exatamente como quinze anos antes, dizia: "vai, menina, vai pra lá brincar, me deixa trabalhar aqui!" - com uma impaciência tão mal-fingida que a menina sorria, levantava num salto e ia pra longe. cada uma perdida em seus pensamentos.
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