segunda-feira, 28 de março de 2011

os olhos cheios de cores

A minha casa era clara, toda em branco, colorida apenas pelas falhas que eram os vidros tão transparentes das janelas, por onde o azul me invadia. As pessoas também pareciam mais cheias de luz (não necessariamente cheias de vida) e quando eu me olhava nos espelhos encontrava um rosto de palidez assustada onde se perdiam dois olhos claros, brancos, verdes, com o negro quase inexistente, numa serenidade transparente. Talvez fosse a luz, mas lembro que todos que entravam naquela casa tinham algo de irreal e eu enxergava além deles; por isso, quando eles entraram, eu demorei a acreditar, e pisquei algumas vezes, sorri um meio-sorriso e me virei para deitar na cama, tão branca contra a pintura branca que pensei que cairia direto no chão. E eles foram entrando. Espalharam-se pelo quarto, colocaram-se ao meu redor, não paravam de me olhar. Tentei olhar pela janela para saber que o azul e as formas ainda existiam, mas um rosto branco sombra-luz se colocou na minha frente e, então, tudo o que eu conseguia enxergar eram irrealidades sem forma nem cor, e elas-eles falavam comigo. Eu me sentia sendo puxada pra um lado e pro outro, cada um deles queria me dizer alguma coisa e eu não sabia quem deveria ouvir; talvez uma daquelas vozes fosse a que me salvaria daquele inferno cândido, mas eu não queria escolher: aos poucos aquela confusão de vozes, chamados, pedidos e toques foi me embalando e eu já não podia sair disso. Não queria calar nenhuma das vozes. Por aquele tempo, pelo menos, eu estava protegida, se atendesse a algum daqueles apelos eu entraria de vez em alguma outra (ir)realidade, indo até o fundo: veria o rosto da voz, ouviria com clareza o seu canto e nunca-mais aqueles outros, e cessaria o ruído, cessaria o branco (claro). Como escolher uma única cor para preencher a ausência-presença de todas? Eu deveria ver o preto, o negro mais negro de tanta cor, mas eles estavam tão-ali que eu não podia ver – e me restava o branco. As vozes rebatiam na cal das paredes, do teto, do chão; inexistências me convidavam e seduziam com seus toques transparentes. Pisquei, num segundo, e minha alucinação julgou enxergar uma cor; pisquei novamente – vermelho, depois vislumbrei um verde vivo; a cada piscada uma cor e uma voz se revelavam, apagando as outras, cada vez um tom: (...) – azul. (...) – laranja. (...) – roxo. (...) fechei os olhos longamente e aquela pausa me deixou tonta: via como num caleidoscópio as cores todas espalhadas pela falta do olhar, e um silêncio escuro. Devagar reabri os olhos e eu estava sozinha, de verdade – só eu, sem-cor. Aos poucos me voltou o sangue e eu pude enxergar em meu corpo as marcas daquela ilusão; os toques, as cores, os gritos – as lembranças. A casa continuava clara, me olhei no espelho frio, me vi vazia. Pelo vidro vi um azul pálido, branqueando. Não sabia escolher as cores, mas naquele momento entendi que ainda pior que calar as outras existências seria seguir naquele vazio: isolada numa claridade asséptica e sem vida. Foi quando eles voltaram e me assustaram: fui surpreendida de olhos arregalados para um branco sujo, assim, logo comecei a definir seus contornos, meus olhos foram voltando e eu pude vê-los. |E vi a todos, e vi as cores. E elas e eles se espalhavam pelo vazio feito areia jogada no vento, e semeavam formas. E as formas não eram únicas e não tinham apenas uma-cor: eram coloridas como se fossem um desenho de criança – as vozes entoavam cirandas e conversavam entre elas. A minha casa continuava clara, não mais branca: a luz se dividia em milhares de cores, meu olhar de prisma girava pelas paredes e eu me via envolvida numa tontura irreal e alegre. Foi então que te vi – cinza; foi que você me pareceu variação do branco, do antigo branco, e um amor nostálgico se instalou em mim: as vozes todas se calaram, novamente, na minha cabeça; eu quis vomitar a transparência que me crescia pelo corpo, quis ser forma, ter forma, ser corpo para te tocar. Era cinza que era feito entre preto e branco e que, contra o céu, assumia um tom perto do verde, verde claro, aguado do olhar. Você não dizia nada. Era cinza de fogo e seus olhos brilhavam mesmo vermelhos naquela imensidão. Abri uma mão que julgava inexistente e aproximei de você, sua mão clara e real imitou e tocou a minha, de leve, de mentira, e nossos corpos tremeram negros, sombras, no envolvimento claro de nosso olhar. Eu te abracei e você perdeu a cor – através de você eu via os outros coloridos, formados e pausados como num filme que virou quadro. Continuei a te abraçar, sem muita força, e – com o olhar – me despedi daquela visão, me despedi de tudo o que era existência, tudo o que era real e cor, e apertei forte os olhos. Apertei forte os olhos abraçando o ar à minha frente e desejando aquela calma, a serenidade, a palidez: a falta-do-tudo ao invés dele próprio. Quando reabri os olhos, estava sem cor, mas aquela pressão contra o meu corpo denunciava alguma presença no meio daquela ilusão: pisquei os olhos e você foi me voltando – cinza – enquanto eu continuava a te abraçar. Feito eu estivesse à beira da morte, te apertava forte e soluçava de leve, os olhos chorando um mundo apagado. Você – corpo – me levou pela mão até a janela, de onde me mostrou um mundo todo – azul – feito de formas – cores – e verdades. E uma voz rouca, cinza, disse claro para mim: você está em toda-parte. Voltei meu olhar, então, e, no vidro-frio de seus olhos, me vi refletida, irreal contra a luz clara que me invadia junto com o céu; entre o mundo e o vazio encontrei você, entre o negro e o branco: te escolhi e já nenhuma cor me falta e já nenhuma sombra me assusta: cinza encontrei minha paz, nessa serena forma que encaro todos os dias contra a parede branca e o mundo arco-íris.|

[24.08.2008]

Nenhum comentário:

Postar um comentário