seria bonito dizer que era realmente como ele imaginava: só tocar as notas certas e andar mundo sentado no banco de seu piano, sendo trilha-sonora e viagem em um-só-tempo.
não era.
talvez na sua cabeça a música fosse forte desse jeito, talvez ele tivesse nascido pra sonhar as coisas mais-distantes, os absurdos mais possíveis e que faziam rir as pessoas mais sérias. talvez. mas, de verdade, na verdade, as coisas não eram tão simples assim.
algumas vezes ele já tentara sair do lugar dedilhando melodias difíceis e longas no teclado branco de seu instrumento, mas as maiores (e únicas) distâncias que ele percorria eram seus sonhos - os olhos fechados e o corpo e os dedos a mil: indescritivelmente ele já viajara por todas as cabeças e pensamentos de um mundo-todo. quando ele cantava, então, era como quando lhe contavam histórias, e ele ia fundo, ele se entregava às sílabas exatas da música, às vozes todas que eram uma só, a sua, sem fôlego e afinada.
à última vibração da última nota, ele abria seus olhos e não havia saído um dedo do lugar.
não se abalava - fechava novamente os olhos e começava a próxima aventura. assim passava horas viajando sozinho.
não era como ele imaginava.
era de outro jeito. nada simples. quando descobriu, nosso pianista ficou um tempo olhando seu velho piano como uma velha máquina. sinceramente, era um pouco óbvio que fosse assim. mas foi uma surpresa.
ele levou o piano até a rua, sentou desconfiado no banquinho, e experimentou algumas notas. nada (nada além de um começo-de-música).
experimentou, então, devagar, aquela velha sequência [ré-lá-ré-mi-fá-lá-fá-mi-ré-lá-ré-lá], o pedal alternando cada pequeno compasso, sustentando cada nova-nota e - aos poucos - movendo todo o corpo grande do piano e o banco com nosso surpreso músico.
(pausa.)
só o coração apressado marcando um pulso impossível.
os dedos tentaram uma melodia corrida, sem suspensões, sustentações, sustenidos... nada.
de novo então os pés se movendo num ritmo diferente do da melodia, feito numa pianola - os sons calados se sem o trabalho das pernas cansadas - com seus pedais mecânicos, a música sendo não só de mãos e teclas, mas uma combinação muito exata e difícil - e o instrumento voltou a andar.
voava pela rua, voavam; os dedos e os braços nas velocidades mais altas, os pés e o piano na tentativa de seguir a melodia que se espalhava pelo ar, que se atrasava com o vento que passava rápido por eles e jogava a música para trás - feito uma fumaça que saísse de um escapamento - enquanto ela os movia para a frente.
não era realmente como ele imaginava.
mas de repente ele podia ir ainda mais longe do que alguma vez sonhara;
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